Sem Brasão

Sempre me interrogam:o que vc faz aqui?És filha de quem?E foi assistindo à peça "Maria Stuart" de Friedrich Schiller, com a tradução de Manuel Bandeira e direção de Antonio Gilberto, que consegui definir o meu status:-Sou sem brasão! Exatamente como se diz na música "Meu mundo é o barro" do O Rappa:

"…não tenho cor, nem padrinho

nascí no mundo, sou sozinho…"

Diante dos meus olhos, a história de duas mulheres que brigam por um só trono – e a Inglaterra se torna pequena para a batalha naval que se trava entre as duas.Elizabeth I usurpa o trono de Maria Stuart, se aproveitando dos constantes deslizes e pecados desta.Mas Elizabeth I sempre quis o trono, sempre quis o poder.A discussão de quem tem mais direito, de quem é a próxima da árvore genealógica real é apenas um pretexto para Elizabeth I alimentar toda a inveja que tinha de Maria Stuart.Num enredo onde ninguém está exímio de culpas, todos se destroem e permanecer de pé no fim é o único triunfo possível.Uma história real tão próxima da vida que levamos, não é?Hj tb se faz tudo pelo poder e quem não o faz é sem brasão, acaba ouvindo os gritos de insanos:-Encerre-o no cárcere!Ele insufla a multidão, provoca discórdias!Destrua-o custe o que custar!

Em muitos momentos do enredo fica claro no relato que Maria Stuart nunca se curvou.Inclusive em um dos momentos da peça o próprio autor a redime, vai em sua defesa e encaixa uma cena que nunca existiu: a de Maria Stuart jogando em rosto da rival Elizabeth I toda a verdade – momento de redenção pela cólera.Momentos como esse, que eu admito: de vez em quando eles vêm à tona e só quem os tem é que sabe o alívio que estes momentos proporcionam, nada resolvem, mas aliviam.

Sim, eu gostei do enredo mas na minha opinião leiga alguns ajustes na apresentação poderia ter afinado mais ainda a peça:como as trocas de cenário.Constantemente, o trono era trocado pelo baú demonstrando quando era o momento da rainha Maria Stuart e quando era o momento de Elizabeth I.Eu, particularmente acho que teria sido melhor manter o trono fixo e com ele iniciar um simbolismo, uma espécie de brincadeira- colocaria um manto quando fôsse trono de Elizabeth I e tiraria o manto quando fôsse a cadeira do cárcere de Maria Stuart(ai, ai,é só uma ideia…como eu gostaria de ter participado do café onde o projeto foi elaborado!).

Revelarei a vcs tb que a peça é demasiadamente longa mas a meu ver foi salva de ser enfadonha pela primorosa atuação dos atores, que compreenderam exatamente o tom absurdo e trágico que deviam passar para o público…a saber, estão no elenco:Julia Lemmertz, Clarice Niskier, Amelia Bittencourt, André Corrêa, Clemente Viscaino, Guilherme Bernardy, Henrique Pagnoncelli, Mario Borges, Mauricio Silveira, Mauricio Souza Lima, Pedro Osorio, Renato Linhares, Silvio Kaviski, Thiago Hausen, Ednei Giovenazzi.

E por último, vcs já devem ter reparado que as Elizabeths a ninguém ouvem e por isso não percebem que as Marias Stuarts só querem o que lhes é de direito: a liberdade.Então, eu tb não me importo mais com as Elizabeths!

Da mina sem brasão,

Patrícia Fields

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