SOLIDÃO EM 3 ATOS

Se tem algo que curto de montão fazer,é assistir uma montagem teatral.

Fui então assistir a peça "Dirigir-se aos homens" com atuação e adaptação de: Wilmar Amaral.

Um monólogo no auge da delicadeza,apontando a solidão crua em três atos.

No primeiro ato,temos a representação de um texto de Maxsim Gorki,intitulado"O avô e o netinho".Nele,avô e neto,ambos mendigos passam pela vida com dificuldades e diferenças…o avô numa vã tentativa de justificar seus atos mais recônditos da alma,se permite roubar pertences alheios,declarando que tudo ficará como herança para o neto.

Mas não deveria lhe deixar de herança um exemplo de caráter?Não deveria ensinar ao neto,que o que é dos outros,não se deve pegar?

O neto sabe que o avô comete delitos,e se envergonha por ele…Mas como consertá-lo,se ele é apenas uma criança e depende dele,tanto financeiramente quanto emocionalmente?O seu avô é sua família.Não possui mais nada de seu.De verdadeiramente seu.

Wilmar Amaral é o avô no maior dos conflitos,entre lutar um pouco mais pelo resto de vida que há,ou se entregar o mais rápido possível ao fim,pra não precisar mais penar pela vida afora.Se mesmo a dois:neto e avô,há solidão…a morte já se fez presente de alguma forma.

No segundo ato,o texto "O Arco" é de Fiodor Sologub.

Conta de maneira tocante e simples,um desses encontros que a vida nos proporciona com alguém que nos é estranho,mas que em algum pequeno gesto,nos despertou uma importante e agradável lembrança.Quando isso acontece,identificamos o insight,e não queremos mais que vá embora…esse momento que espanta a solidão pra bem longe!

Assim se dá nesse conto,em que um idoso vê uma brincadeira de criança com um arco.Não sossega até também ter o seu,quando isso se dá,passa a ter os dias mais felizes de sua vida.Melhor…recorda que um dia havia mesmo sido feliz.Como pôde ter se esquecido como eram bons e áureos esses tempos!

Agora morrerá sem a solidão de antes…possui suas lembranças,portanto não está mais só!

Wilmar faz um emocionante resgate das lembranças que devemos carregar pra sempre conosco.

No terceiro e último ato, assistimos Angústia de Anton Tchekhov.

É esta narração que aponta o qual dificil é dirigir-se aos homens,pois conta a história de um cocheiro que havia perdido seu filho recentemente e se encontrava em angústia.Ele procura alguém que ouça e compreenda sua dor.Ele até que faz algumas tentativas,mas sem nenhum sucesso.Não passa pelo seu caminho,ninguém que o olhe de verdade,que perceba sua dor ou se importe com ela.

Todos o encaram apenas como um meio de chegar aos seus destinos,tanto faz se ele está bem ou não…Contanto que saiba chegar no destino desejado.

Quando o dia finda,ele se recolhe mais angustiado do que nunca,porque agora sabe que além de sua dor,também tem a solidão como companheira.

Ao constatar isso,lembra que ninguém cuida dele,mas ele precisa cuidar de sua égua que esteve com ele durante toda dificil jornada.Sai até o estábulo para alimentá-la,e logo abre-lhe seu peito…É pra ela que vai desabafar tudo que lhe pesa a alma.Ela o ouve silenciosamente.

Mais fácil conversar com ela,do que dirigir-se aos homens.

Vim pra casa,pensando:

-no meu avô que já partiu,e na vida exemplar que teve,nunca me envergonhei dele;

-também já tenho "meus arcos" de lembranças,me fazem rir e recordar;

-preciso reconhecer/atender quando alguém quiser se dirigir a mim.

Um espetáculo para encher a cabeça e o coração,espantando qualquer manifestação de solidão,

Sandra Sclata

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