DIÁRIO DE CLASSE

Também fui assistir a peça “Prof ! Profª !” com texto de Jean Pierre Dopagne,direção de Celso Nunes e interpretação da atriz Jandira Martini no palco do CCBB.

Nela uma professora de Literatura conta-nos o porquê de estar ali…ela foi condenada a contar todas as noites como e porquê matou alguns de seus alunos,em plena sala de aula,em pleno ano letivo. Já ciente que eu seria parte da plateia daquela noite,pus me a escutar atentamente,letra por letra…palavra por palavra…tudo que aquela professora tinha pra contar…desabafar.

Aquela “fessora”estava pagando pelo seu erro,e nada que contasse ali justificaria seu ato de assassinar,mas poderia talvez explicar-nos como tudo foi acumulando emocionalmente até desabar assim:em morte coletiva.

Tudo começou quando há anos atras ao “pegar” sua primeira turma,ela encheu-se de empolgação e sonhos.Em sua cabecinha professoral juvenil,ela conseguiria construir com seus alunos uma estreita relação de trabalho e amizade.Num trabalho mútuo,seus alunos iriam “sugar” seus ensinamentos de literatura,como sedentos dirigem-se à uma fonte de água fresca.Jorrando em abundância…

Ela até queria mesmo oferecer-lhes tudo que sabia e também aprender com eles!

Qual prof ou profª nunca aprendeu com seus alunos?Nunca tornou-se amigo dos alunos?

Mas para sua triste surpresa,poucos dos muitos que passaram por seu diário de classe,estavam verdadeiramente interessados neste convivio/aprendizado sábio.

A grande maioria só sabia entre uma goma de mascar e outras ações irritantes,dizer:

-Prof ! Profª ! Fessora!

Poucos interessados em aprender de verdade.

Poucos alunos para dar atenção a mágica do saber que aquela professora de literatura tanto tinha a transmitir! E ela queria transmitir.Ela queria tocar suas almas e assim mudar suas vidas futuras!Ela queria orgulhar-se deles!

Ela os matou naquela manhã em plena sala de aula por grande frustração que sentia.Ela os matou naquela manhã,mas alguns daqueles alunos já a haviam matado há muito tempo atras…em cada olhar de descaso por sua presença na sala…a cada indiferença por sua matéria aplicada.

Aqueles alunos,aquele sistema de ensino já haviam matado seu sonho de lecionar há muito tempo…agora a professora de literatura permanece assim,todas as noites contando sua experiência para uma plateia que pode conter um ou uma : Prof ! Profª ! vivendo quem sabe o mesmo dilema…não ter em sala de aula quase ninguém interessado em aprender…Em respeitar seu mestre,nem sequer ouvi-lo(a).

Sandra Sclata

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