MAS NÃO

🎭Estive no Teatro SESI para assistir a peça “Race” de David Mamet com direção de Gustavo Paso.
No elenco:
Gustavo Falcão(dr.Jack)
Heloísa Jorge(assistente dra. Susan)
Nill Marcondes(dr.T.J)
Yashar Zambuzzi(cliente Charles)
Na trama um suspeito/acusado do crime de estupro procura pela segunda vez por um escritório de advocacia.Quer provar sua inocência. O primeiro escritório procurado pelo acusado,por ser administrado por um judeu experiente não arriscou a pegar sua causa.
Por quê arriscar a credibilidade de um escritório por um cliente obviamente culpado?
Charles afirma que é inocente.Charles,um branco racista é acusado de ter estuprado uma negra.Ele jura aos advogados que é inocente. Mas ele mente…há testemunhas do quarto de hotel,que garantem ter escutado toda execução do crime.
Os caros doutores,T.J e Jack,tem opiniões diferentes sobre a causa.Ambos concordam que o cliente Charles é mesmo culpado,estuprador e racista.O advogado T.J não quer arriscar o bom nome do escritório para absolver um culpado.Já o advogado Jack acha que inocentar esse culpado,pode trazer para o escritório: dinheiro e fama.
A questão é: será que vale a pena?
Eles precisam decidir juntos:são sócios.Um negro e um branco,são sócios. Por quê não?
Enquanto os sócios reúnem-se para decidirem se “pegam ou não a causa perdida” de Charles,a assistente do escritório vai tomando decisões à revelia…por ser mulher,por ser mulher negra,compra pra si a causa e vai dando uns toques na pauta.
A trama da peça desenvolve-se de forma precisa.Clara.Suturacão cirúrgica.
A interpretação perfeita do elenco nos dá bem a ideia de como atos & efeitos são uma coisa só! A questão é: fosse o estuprador um negro,a assistente do escritório teria tomado as mesmas atitudes?Ou diria que ele era um estuprador porque como negro foi muito maltratado pela vida?
Pelo que ouvi durante a peça,por quem estava sentado atrás desta que vos escreve,o estupro é sempre ação dos brancos.
Hein!
Ao chegar no meu lugar,o cara atrás disse pro outro:-nossa sentamos atrás de uma gostosa.
Como não tô com essa jabulani toda,quis acreditar que o comentário não se aplicava à minha pessoa.Até porque achei o comentário:péssimo. Vulgar.
Quem falou era/é negro.Viu?
Ao chegarem,minha irmã e minha mãe, os outros dois acompanhantes do cidadão acima disseram:
-Melhor ainda…não é só uma.São três.
E falaram mais baixarias que não merecem ser escritas aqui neste despretensioso blog.Mas quer saber?
Preocupei-me.
Como puderam desrespeitar assim as cãs de minha mãe? Já fui ao teatro diversas vezes,e nunca passei por algo assim…Constrangedor.Me desrespeitaram. Desrespeitaram minha irmã.
Aí é considerado um ato bonitinho só por que são negros?Se fossem brancos era racismo,sendo negros tenho que achar normal?
Tentei prestar atenção máxima à peça, mas esses três atrás, não calavam a boca e riam…riam muito do fato do branco estuprar a negra.
Mas onde está a graça?
A assistente do escritório acharia o quê deles?Culpados?Piadistas?
Ao término da peça houve debate de idéias,mas muitos na plateia insistem num racismo às avessas.Houve quem dissesse que chamou um branco pra ser negro,e entender como que é…
Hein?
Não é assim que eu penso. Não é assim que vivo.
Fui criança negra em escola pública de subúrbio,ou seja,já ouvi todo tipo de apelido que se possa imaginar…tô aqui,não tô?
Não me escondi de ninguém. Se ainda sofro racismo?Claro que sim…mas quer saber agora não e só de brancos não, da parte de negros também!
Não sou ativista.Não concordo com essa luta armada silenciosa que está instalando-se entre a raça branca x raça negra.Racismo em mão dupla.Racismo às avessas.É mais ou menos assim,por anos o negro só apanhou,agora chegou a vez de bater. Bater forte.
Eu não. Eu acredito sinceramente que essa não é a melhor forma de enfrentar o racismo.Não quero bater,nem ser racista também. Quero poder entrar em qualquer lugar,conversar com quem quiser: branco ou negro.Namorar quem eu quiser:negro ou branco.
Quero conviver bem com todos da raça humana.
Se ter identidade negra é odiar alguém simplesmente porque esse alguém é branco,não sou capaz de fazê-lo.Sou negra e sempre serei uma negra.Com muito orgulho,mas não uma ativista. Não luto por ódio aos brancos.
Acredito que a proposta da peça também não seja a de propagação de ódio racial,e entendo perfeitamente que direção e elenco não tenham controle dessa dimensão nas mentes da plateia.
Agradeço à Ângela pelo programa que lhe “tomei”:obrigada.
P.S:essa excelente peça está hoje no SESI Itaperuna às 20h.
Qual o final da trama teatral “Race”?Ah…não conto não! Vai lá assistir…imperdível.
#somostodosdaracahumana
#identidadenegra
#euvouaoteatro

Sandra Sclata

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